O DOBERMANN NO BRASIL NOS ANOS 50

 

Dr. Eduardo Kunze Bastos

 

Como era de se esperar, bem antes dos anos 50 já existiam Dobermanns no Brasil. Uma das importações pioneiras foi o macho alemão Wotan v. Park em 1922, por Agostinho José Vaz. Fato não menos interessante é o relato jornalístico de um concurso de adestramento (obediência e defesa), entre cães de várias raças, realizado em 1924 na Praça da República, Rio de Janeiro. Nesta prova de trabalho os Dobermanns Harras v. Eggenberg, Boby e Abs v. Hohenstanberg obtiveram, respectivamente, os três primeiros lugares. Para completar este quadro inicial se faz mister esclarecer que alguns Dobermanns nascidos no Brasil nos anos 40 fecharam campeonato nacional, como por exemplo BR-Ch Clipper dos Moinhos de Vento, nascido em 1948 em Porto Alegre, e que deixou descendência no Rio Grande do Sul. Entretanto sem sombra de dúvida é nos anos 50 que se inicia a criação propriamente dita, isto é, criação utilizando os princípios básicos da seleção animal. Anteriormente, tínhamos mais a “reprodução”, ou seja o simples acasalamento entre dois Dobermanns. Por outro lado se começou uma criação com registros genealógicos completo (RG) se contrapondo ao registro inicial (RI) que antes era muito freqüente. Sem maiores rodeios pode-se dizer que o macho alemão BDSG Troll v. d. Eversburg, SchH III, FH, nascido em 1948, filho do grande reprodutor BDSG Alex v. Kleinwaldheim, Sch I, gek., e “inbreeding” do fabuloso Troll v. d. Eversburg, foi o principal elemento desta época. Padreou as ninhadas “F” (1953) a “J” (1957) do Canil Tabajara do Norte, localizado em Recife. A mãe destes filhotes foi a holandesa Daisy v. d. Kasteeldreef, também descendente do Troll v. d. Eversburg. Pelo menos sete Dobermanns resultantes dos cruzamentos acima foram importantes para a criação nacional (BR-Ch, VDC Flama, Flash, Franz, BR-Ch Horst, Icaro, If e Jota, todos com o prefixo Tabajara do Norte). Os destaques foram as fêmeas Flama e If, respectivamente, “foundation bitch” dos canis Marigny e Haus Viking. Na Alemanha o Troll v. d. Eversburg deixou três filhos que merecem citação, a fêmea D-Ch, BDSG, BSG NL-Wn Jette v. d. Geilenberge, Gotz v. Bismarcksteeg que veio a ser avô da grande reprodutora BDSG Cita Germania e ainda Treu v. d. Steifarthohe que foi reprodutor na Grã Bretanha. O Troll v. d. Eversburg foi originalmente exportado para as Estados Unidos, onde por não cobrir cadelas de qualidade não deixou nenhum produto aceitável. Através do titular do Canil Tabajara do Norte, Solon Frota, o Troll veio dos Estados Unidos para Recife, e se tornou o “Adão” de nossos Dobermanns.

O Canil Tabajara do Norte efetuou outras importações como a BR-Ch Inka v. d. Nordburg, que antes de cruzar o Atlântico, deixou na Alemanha seu filho Bordo v. Furstenfeld, o esteio da linhagem Furstenfeld. No Brasil, juntamente com BR-Ch Conny v. Furstenfeld, produziu as ninhadas “P” e “Q”, que incluíam o BR-Ch Peter v. Tabajara do Norte, pradeador muito utilizado em São Paulo. Cruzada com o BR-Ch Horst v. Tabajara do Norte, teve Muck v. Tabajara do Norte, reprodutor no Nordeste. Reforçando o plantel, o Canil Tabajara do Norte importou os irmãos Conny e Ceno v. Furstenfeld, ambos se tornaram campeões brasileiros, e são irmãos de ninhada dos famosíssimos Int + CH-Ch, IDCSG, BDSG Citta e IDCSG, BDSG, NL-Wn Citto v. Furstenfeld. Segundo o próprio Solon Frota o Ceno era superior aos irmãos, motivo pelo qual não foi exposto na Alemanha. Os dois nos deixaram grande descendência de norte a sul. Talvez o melhor resultado destes cães foi a ninhada “V” do Canil Marigny, entre o Conny e a Flama. Posteriormente chegou a Kira v. Furstenfeld, neta da BR-Ch Inka v. d. Nordburg e irmã do cão de trabalho e excepcionalmente reprodutor Vello v. Furstenfeld, SchH III, angek.

O Canil Marigny no Rio de Janeiro, cujo titular Otto J. V. Dunhofer era juiz especializado e fundador do Dobermann Club da Guanabara, teve uma intensa atividade nos anos 50 e 60. Além da citada Flama, possuía também a austríaca Tingri v. d. Scholle e a partir destas matrizes produziu uma série de ninhadas. Afora a famosa ninhada “V” (2xBR-Ch Valiant CG 1, BR-Ch, VDC Victoria, Vanguard e Vamp), merece citação a “S” entre Tingri v. d. Scholle e Etoile of South American Kennels, onde a grande estrela foi o 4xBR-Ch, VDC Saturno de Marigny, CG I, que deixou grande número de ninhadas. Completando o tripé dos canis temos o Haus Viking, o único remanescente dos anos 50 ainda em atividade. Sua titular é a juíza especializada Suzanne Blum. O Haus Viking importou a BR-Ch Toxi Germânia, ScH I, que junto com If Tabajara do Norte foram as matrizes dos primeiros produtos. O francês filho de holandeses Flip de la Morliere e o alemão Arko v. Muhleneck, meio irmão paterno do grande WSG Lump v. Hagenstolz, ScH I, vieram reforçar seu plantel. Toxi foi mãe do famoso 4xBR-Ch Neron v. Haus Viking CG I e do influente ARG-GRCh Norman v. Haus Viking. If por sua vez teve como filhos o lendário BR-Ch Othello v. Haus Viking (grande “Show Dog” e reprodutor), e as campeãs Ester Fee e Furstin. Já nos anos 60 o plantel foi reforçado pelas alemãs Reni v. Forell (filha da Cita Germânia) e Sonny v. Forell. O Haus Viking continua criando Dobermanns na Granja Viana (Cotia – SP) e importou vários exemplares da Europa, ultimamente da Holanda.

O holandês Alextordo (sem nome de canil) em 1956, em São Paulo, teve com Liana da Holanda a ninhada “B” do Canil Anhangá; e com Mimi do Viareggio as ninhadas “B” e “C”, esta última em 1957, deu o Claudius de Speeral que foi reprodutor no Paraná. Interessante ressaltar que a Mimi é bisneta do importado norte americano Zephir Duke, nascido em 1949. O francês, filho de alemães, Br-Ch Claus d´lle de Ker deixou duas linhas principais, uma através da Ava do Manacá, cuja mãe era a BR-Ch Diana de Holanda, e do Etoile of South American Kennels, filho da Rebeca do Araxá. No Rio Grande do Sul o alemão Muck v. Sylvester contribui com vários descendentes, como Ájax (sem nome de canil) e a importante reprodutora Deca da Conceição, mãe dos campeões Iro e Gilda da Conceição. Nos anos 60 chegaram neste estado, para o Canil Cresisto, dois alemães que influenciaram grandemente a raça no Brasil, eram eles: Sam v. Romberg e sua mãe Kytta v. Romberg, SchH III.

O holandês BR-Ch Ferdinand v. Vlamovia foi importado pelo Canil Oxumaré da Bahia, onde com a BR-Ch Dana dos Guararapes, teve duas filhas: BR-Ch Dorle Iao do Oxumaré e Fly do Oxumaré, que seguiram reproduzindo. Sua outra filha conhecida foi Hexe v. Haus Viking, com If Tabajara do Norte, e que foi utilizada como matriz no Haus Viking. O Oxumaré tinha também como reprodutora a BR-Ch Fee v. Haus Viking, mãe do Álamo Príncipe Alaô do Oxumaré.

Na sua grande maioria as importações de Dobermann nos anos 50 era da Europa, mais precisamente da Alemanha, país de origem da raça. Entretanto tivemos no Rio de Janeiro uma bem sucedida importação de cão norte americano, a do BR-Ch, VDC BoxBob´s Terry of Kaiangwan, embora tenha morrido precocemente em 1961, nos deixou bons frutos, como a BR-Ch Flôr de Maio do Araxá. O Terry era meio irmão paterno do “imortal sire” o USA-Ch Steb´s Top Skipper. O outro americano aqui utilizado como reprodutor foi o residente no Uruguai, UR-Ch Dobe Acres Moe, filho do grande pradeador USA-Ch Dobe Acres Cinnamon. Pelo que se sabe só teve duas ninhadas registradas em seu nome, e ambas no Rio Grande do Sul. Na primeira com a Deca da Conceição teve o BR-Ch Iro da Conceição, na segunda com a Althea de Seival foram três campeões, Demo, Degas, Dana de Seival. Principalmente através destes quatro campeões e mais duas irmãs do Iro, o Moe foi, até então, a maior influência norte americana na raça. A norte americana Steb´s High Scandal, filha do duas vezes BIS da Exposição de Westminster, USA-Ch Rancho Dobe´s Storm, teve no Brasil pelo menos duas ninhadas, “U” e “T” de Monteluz, respectivamente, com Vailiant e Vanguard de Margny. Sua descendência aparentemente não foi devidamente considerada. Contudo a partir da filha Triana de Monteluz formou uma linha de descendência. Afora estes Dobermanns já comentados e que se encontram no esquema anexo, todos descendentes do destacado reprodutor USA-Ch, DSG Muck v. Brunia, houveram outras importações, por exemplo: os italianos BR-Ch Dober VIII e Athos VI, o suíço Aldo v. d. Hagnau e os alemães Kuno v. d. alten Linde, SchH I e Diana v. d. Bill, que também deram sua contribuição na formação do plantel inicial.

O pedigree do Int-Ch, BR-GrCh, GVN Negus de Sumatra, irmão e meio irmão de vários campeões, ilustra muito bem como se originou nossos primeiros Dobermanns. O estoque original dos Dobermanns brasileiros foi formado pelas importações supracitadas, mas teve também a contribuição, ainda que pequena, da população pré-existente, isto é, de exemplares nascidos no Brasil no início dos anos 50 ou final dos 40.

Durante os anos 50 e no início dos 60 já existia grande intercâmbio na criação nacional, era possível encontrar Dobermanns gaúchos reproduzindo em Pernambuco e vice-versa. Isto não impediu a ocorrência de criação a nível mais estadual ou regional. Infelizmente a criação nordestina após os anos 60 perdeu sua destacada posição dentro do cenário doberista nacional. Sem dúvida isto está relacionado com a parada de atividades do Canil Tabajara do Norte. Segundo Sólon Frota, este fato nada teve com o teste de temperamento do qual ele seria contrário, conforme fora erroneamente divulgado, e sim pela maneira bruta como ele estava sendo efetuado, inclusive lesionando cães. Sólon Frota afirmou que sempre foi favorável aos testes de temperamento, desde que aplicados corretamente.

Quase todo doberista, principalmente no Centro-Sul, já ouviu alguém se referir a Suzanne Blum como a “mãe da raça” Dobermann no Brasil, mas poucos sabem que Herr Sólon Frota certamente é o “pai da raça”. Independente destes fatos cartoriais, ambos deram uma contribuição “sine qua non” para o desenvolvimento da raça Dobermann no país. Finalizando este artigo, se faz mister citar alguns dos principais canis de Dobermann no Brasil nos anos 50/60: Holanda, Cascalho, Oldenburg, São Lourenço, São Quirino, Porto Seguro, Speeral, Duque, Montezuma e Haus Viking (SP); Araxá, Senai, Itaipava, Manacá, Caxambu, Alvorada, Monteluz e Marigny (RJ); Moana do Norte, Prazeres, Piedade, Pirapama e Tabajara do Norte (PE); Blue Gardênia e Oxumaré (BA); Victory (ES); Valparaíso (PR); Tiradentes (GO); Marves, Fazenda Velha e Glaukus (MG); Cresisto, Seival e Conceição (RS).

A história de nossos Dobermanns, em função das suas origens, é muito parecida com a dos Dobermanns ingleses. O principal reprodutor lá foi Tasso v. d. Eversburg (of Tavey), irmão do nosso Troll. A mais importante matriz Prinses v. ´t Scheepjeskerk, C.D.ex.,U.D. era irmã da NL-Ch Prinses Irene v. d. Oude Rinjin (avó de Flip de la Morliere) e meia irmã paterna de nossa Daisy v. d. Kasteeldreef (matriz do Tabajara do Norte). Outra matriz da Inglaterra foi Britta v. d. Heerhof era irmã do NL-Ch Bucko v. d. Heerhof, pai do nosso Alextordo. O Waldo v. d. Wachtparade e o Frido v. Rauhfelsen tiveram grande influência na formação do plantes inglês. Os irmãos campeões Tavey´s Stormy Achievement e T. S. Abundance eram filhos do Rancho Dobe´s Storm. Outro grande reprodutor de sangue americano GB-Ch Acclamation of Tavey era neto do Dortmund Delly´s Colonel Jet e Rancho Dobe´s Primo. Descendentes destes cães vieram posteriormente para o Brasil. Por extensão nosso estoque original é também similar ao australiano, que foi oriundo da Inglaterra.

Os Dobermanns alemães que aparecem no esquema e tem título de USA-Ch, foram “exportados” para os Estados Unidos e participaram ativamente na formação do plantel americano. Convém apenas lembrar que o Domossi of Marienland era irmão mais velho do famoso USA-Ch Dictator v. Glenhugel, cuja mãe era a USA-Ch, RSG Ossi v. Stahlhelm, SchH I, filha do Troll v. d. Engelsburg.