O
MITO DAS CIRURGIAS ESTÉTICAS
MARIA IGNEZ CARVALHO FERREIRA
Professora adjunto do Departamento de Medicina e Cirurgia
UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO
Instituto de Veterinária
CRMV RJ 1.417.
Recente matéria, veiculada na mídia, sobre a
regulamentação de alguns procedimentos cirúrgicos em animais, trouxe à tona um
tema bastante polêmico: O mito sobre as chamadas “cirurgias estéticas” em
cães.
Como médica veterinária, professora universitária, criadora e simpatizante dos
movimentos de proteção animal, não posso deixar de me preocupar com as
conseqüências para o bem estar animal da resolução 877 do Conselho Federal de
Medicina Veterinária.
Considero que a colocação em prática desta resolução, sem uma avaliação mais
profunda de suas implicações futuras, ao invés de estimular princípios básicos
da profissão de Médico Veterinário, só estimulará uma atuação amadora e não
ética.
A ação restritiva imposta aos médicos veterinários, credenciados e
legalizados, invariavelmente acarretará a proliferação do charlatanismo.
É preciso enfatizar que a conchectomia (cirurgia de orelha) e a caudectomia
(corte da cauda), realizadas dentro de técnicas cirúrgicas adequadas e por
profissionais competentes, não podem ser consideradas cirurgias
desnecessárias, estéticas ou mutilantes. São cirurgias eletivas, atendendo
perfeitamente às necessidades funcionais e zootécnicas para as quais as raças
caninas, que dela se utilizam, foram desenvolvidas. Realizadas por pessoas não
credenciadas, constituem um risco enorme ao bem estar animal.
A tradição de se rotular estas cirurgias como “estéticas” ou “mutilantes” foi
adquirida em função do desconhecimento de alguns princípios básicos que
tentaremos esclarecer.
1) Biologia
O cão doméstico (Canis lupus familiaris) é uma variedade ou sub-raça do lobo (Canis lupus) pertencem a classe Mammalia (1). Na maioria das vezes não nos damos conta que uma das principais características desta classe é a presença de meato auditivo longo e aurículas externas grandes, móveis e em concha. Essas características dos mamíferos térreos contribuem para o aumento da acuidade auditiva. Além disso, a aurícula ajuda a determinar a direção do som e, em conjunto com um meato auditivo longo, concentra sons oriundos de uma área relativamente grande. Nenhum mamífero térreo, exceto as variedades ou sub-raças dos animais domésticos desenvolvidas pelo homem, possui o meato auditivo encoberto pela aurícula. A sensibilidade auditiva de um mamífero terrestre pode ser reduzida se as orelhas são totalmente removidas ou quando algum detalhe anatômico dificulta a penetração do som no conduto auditivo.
2) História
Desde a pré-história os homens primitivos
representavam os canídeos com as orelhas eretas. No Brasil, o homem
pré-histórico, que provavelmente habitou o cerrado a partir de 15 mil anos
atrás, deixou inscrições na forma de figuras gravadas ou pintadas na rocha.
Abundantes e visualmente impactantes, os zoomorfos (representações de animais)
se destacam nos sítios arqueológicos do Brasil central. (2)
No norte da Europa, descobriu-se "cães das turfeiras" que datam de 10.000 a.C.
e cujo estudo permitiu concluir que esta variedade tinha a aparência de um
Spitz do Norte, de orelhas curtas e retas, pêlo longo e cauda enroscada por
cima dos quartos traseiros.
No Egito era freqüente a representação de cães assemelhados a galgos de
orelhas eretas, nas pinturas murais ou nos baixos-relevos.
Os gregos foram os primeiros a adotarem os cães como animais de companhia. Em
vasos pintados e colunas da época clássica, aparecem cães de caça de orelhas
finas e pontudas e focinho afilado.
Num dos mais célebres mosaicos de Pompéia, aparece a representação de um cão
de orelhas eretas, com uma expressiva legenda que aparece destacada no
mosaico: "Cuidado com o cão" (Cave canem) (3).
3) Evolução e função zootécnica
Ao longo dos séculos, através da
domesticação, o ser humano realizou uma seleção artificial dos indivíduos que
melhor atendiam aos seus objetivos. O resultado foi uma grande variedade de
raças caninas.
Partindo do princípio que os cães primitivos tinham o pavilhão auricular
ereto, o desenvolvimento de raças caninas de orelhas pendentes surgiu por
intermédio de seleção artificial, talvez na intenção diminuir a audição dos
cães para a caça. Esta seleção artificial resultou em alterações anatômicas de
conformação do canal auditivo e orelhas pendentes, principais fatores
predisponentes proliferação de microorganismos, desenvolvimento de otites e
surdez.
Há de se notar que a conchectomia não é praticada nos cães cuja função
zootécnica é a caça, ficando praticamente restrita aos cães de proteção que
necessitam de maior acuidade auditiva na realização da função para o qual foi
selecionado.
A conchectomia realizada dentro de técnicas éticas, não impede de maneira
alguma a capacidade de expressão do comportamento natural da espécie, muito
pelo contrário. Cortando-se parcialmente a aurícula dos cães de proteção, os
movimentos de ereção, abaixamento e rotação das orelhas ficam facilitados,
dando aos cães melhores condições de espantar insetos e se proteger de mordida
de outros cães. Tal procedimento também facilita a circulação de ar no conduto
auditivo, diminui a umidade local e melhora a percepção dos sons e acuidade
auditiva, diminuindo as chances de proliferação de microorganismos que
conduzem à otite.
Quanto à caudectomia ela é realizada nos cães de caça, com a finalidade de
evitar acidentes e está na dependência do tipo de terreno onde o animal
trabalha e da forma como o cão porta a cauda. Nos cães de proteção, a
caudectomia só é realizada nas raças que portam a cauda acima da linha do
dorso. Seu o objetivo é diminuir os pontos de apoio para quem pretenda
neutralizar a ação do cão. Todas as raças nas quais a caudectomia é realizada,
têm como característica o porte da cauda acima da linha do dorso e mobilidade
acentuada. Estas características predispõem os animais de trabalho ao
desenvolvimento de ferimentos freqüentes e neurites, o que invariavelmente
conduzem a uma amputação da cauda em idade avançada.
4) Bem estar animal
Movimentos contra o corte da cauda e da
orelha em cães são comuns no mundo inteiro. Muitos alegam, por
desconhecimento, que se trata de procedimento mutilante, puramente estético e
desnecessário.
Como veterinária não posso concordar integralmente. Concordo que uma
conchectomia radical (com interferência em músculos e nervos) possa ser
prejudicial e considerada mutilante (figura 3). Entretanto, a conchectomia e a
caudectomia, realizadas dentro de técnicas cirúrgicas adequadas e por
profissionais competentes, não podem ser consideradas cirurgias
desnecessárias, estéticas ou mutilantes. São cirurgias eletivas, atendendo
perfeitamente às necessidades funcionais e zootécnicas para as quais as raças
caninas, que dela se utilizam, foram desenvolvidas. Realizadas por pessoas não
credenciadas ou com técnicas radicais, é um risco enorme ao bem estar animal.
Como criadora há várias décadas e proprietária de cães, tanto com orelhas
cortadas (figura 4) quanto com orelhas integras (figura 5), posso afirmar que
os cães com orelhas cortadas têm maior acuidade auditiva, menor tendência a
desenvolver otite e a chacoalhar as orelhas. Por sua vez os cães com orelhas
íntegras têm menor predisposição ao ataque de moscas sugadoras. Quanto à
estética, não vejo diferença alguma. Há algum tempo já optei por deixá-las
integras, mas o proprietário tem direito ao livre arbítrio.
Como protetora, pude observar que os filhotes das raças que são submetidos à
conchectomia, realizadas por veterinários, recebem mais atenção de seus
proprietários na principal fase de desenvolvimento de sua personalidade, são
tratados e vacinados adequadamente, raramente são abandonados e em caso de
necessidade, são mais facilmente recolocados em lares adotivos. O mesmo não
acontece com os filhotes que são submetidos a cirurgias mutilantes em “rinhas
de cães” e locais assemelhados.
Como educadora, não posso deixar de me preocupar com as conseqüências da resolução 877 do CFMV. A resolução do Conselho tem efeito restritivo apenas para o médico veterinário e não sobre pessoas desabilitadas e inescrupulosas, reais responsáveis pelos prejuízos ao bem estar animal.
FIGURAS
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Referências bibliográficas:
Mammalia. In: Wikipédia: A enciclopédia livre.
Disponível em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Mammalia. Acesso em 21 de maio de 2008.
Neves, AC.; Mourão, F.: Krettli, L; Figueira, J.E.; Barbosa, P.M. no rastro dos mamíferos: um safári na savana brasileira. Ciência Hoje, v. 38, n. 227, p. 70, 2006. Disponível em http://ich.unito.com.br/51506. Acesso em 21 de março de 2008.
O cão na antiguidade. Disponível em http://www.dogtimes.com.br/antiguidade.htm. Acesso em 21 de março de 2008.
Müller R. Pathophysiology of Otitis Externa. In: Proceedings of the Southern European Veterinary Confederence & Congreso Nacional AVEPA, 2007 – Barcelona Sapin. Disponível em: http://www.ivis.org/signin.asp?url=/proceedings/SEVC/2007/toc.asp. Acesso em 21 de março de 20085.